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Como funciona uma catraca RFID e o que ela exige do cartão

A catraca energiza o cartão por rádio, recebe um número e consulta a controladora. O cartão precisa ter frequência, protocolo, chip e geometria compatíveis com o leitor.

Por Victor Cardarello11 min de leitura

Uma catraca RFID não "lê o cartão" no sentido comum: ela mantém um campo de rádio ligado na coluna, energiza o cartão que entra nesse campo, recebe de volta um número, pergunta à controladora se esse número está liberado e só então manda o pulso que destrava o giro. Tudo o que o cartão precisa entregar nessa sequência começa por quatro pontos técnicos — frequência igual à do leitor, protocolo igual ao do leitor, o dado no lugar certo (UID ou setor autenticado) e uma construção física que não estrague a antena interna.

O que acontece entre a aproximação e o giro

O leitor embutido na coluna da catraca tem uma antena que emite campo eletromagnético continuamente. Em 13,56 MHz, o acoplamento é indutivo: a antena do cartão — uma bobina de fio ou trilha de cobre laminada entre as camadas de PVC — capta energia desse campo e alimenta o chip, que não tem bateria. A norma ISO/IEC 14443 é a que define as características físicas e a interação entre cartões de proximidade e leitores nessa frequência, com alcance típico de até 10 cm. Essa distância curta não é limitação de projeto ruim: é o que faz a catraca ler o cartão de quem está passando, e não o da pessoa atrás na fila.

Energizado, o chip responde com sua identificação e entra no procedimento de anticolisão, que permite ao leitor isolar um cartão quando há mais de um no campo. Na camada física, conforme a documentação da NXP para seus circuitos leitores ISO/IEC 14443 A, o sentido leitor→cartão usa codificação Miller e o sentido cartão→leitor usa modulação de carga (Manchester ou BPSK), com taxas de 106 kbit/s a 848 kbit/s. É por isso que a transação inteira acontece em fração de segundo e o usuário percebe só o bipe.

Depois vem a parte que a maioria dos projetos erra: qual dado o leitor vai usar. Ele pode se contentar com o UID (o número de série de fábrica do chip) ou pode autenticar uma chave e ler um bloco de memória dentro de um setor. São decisões de sistema, não do cartão — mas determinam qual cartão você pode comprar. Por fim, o leitor envia o número à controladora (por saída Wiegand ou serial), ela compara com a lista de liberados e aciona o mecanismo do braço ou do torniquete. Se o cartão bipa e não gira, o problema está na controladora ou no cadastro. Se não bipa, o problema é de frequência, protocolo ou do próprio cartão. Essa separação economiza horas de suporte.

Frequência: a primeira eliminatória

Leitor de 125 kHz não enxerga cartão de 13,56 MHz, e vice-versa. Não é questão de configuração: são fenômenos físicos e protocolos diferentes. Antes de comprar qualquer lote, é preciso saber em que faixa a catraca instalada trabalha. A linha de Cartões com Chip, RFID/NFC existe nas três faixas exatamente porque o parque instalado brasileiro é misto — há prédios rodando proximidade 125 kHz há mais de uma década ao lado de catracas novas em 13,56 MHz.

Faixa Padrão / chips típicos Distância prática Papel no controle de acesso Limitação
LF — 125 kHz e 134 kHz EM4100, EM4200, T5577/ATA5577, Hitag Até 10 cm Catracas e leitoras de proximidade já instaladas, condomínio, portaria Entrega basicamente um número fixo; sem memória útil e sem criptografia
HF — 13,56 MHz ISO 14443A: MIFARE Classic 1K/4K, Ultralight, DESFire, MIFARE Plus, NTAG Até 10 cm Padrão da maioria das catracas novas: acesso, ponto, refeitório, cashless Exige acerto de chip e de chaves entre cartão e sistema
UHF — 902–907,5 e 915–928 MHz no Brasil EPC Gen2 / ISO 18000-63 (UCODE, Monza, Higgs) 3 a 10 m Cancela veicular, portaria de veículos, inventário de ativos Alcance longo demais para pedestre: lê cartões da fila inteira

A faixa UHF usada no Brasil não é escolha do fabricante: a Anatel trata 902–907,5 MHz e 915–928 MHz como faixas de radiação restrita com limites próprios de intensidade de campo, e a interface aérea correspondente é descrita pela ISO/IEC 18000-63, que cobre 860 a 960 MHz. Se o seu projeto é de portaria veicular, e não de catraca de pedestre, vale ler antes o material sobre EPC Gen2 e ISO 18000-6C — o comportamento do UHF é outro mundo.

Esse predomínio do HF em acesso não é impressão de quem fabrica. A MarketsandMarkets aponta o segmento de alta frequência com a maior participação do mercado de RFID em 2024, puxado justamente por pagamento por aproximação, controle de acesso, bilhetagem e identificação segura. O mercado global de RFID, segundo o IMARC Group, foi avaliado em US$ 14,3 bilhões em 2024, com projeção de US$ 45,9 bilhões em 2033 e crescimento anual composto de 12,5%.

As seis exigências que o cartão precisa cumprir

1. Protocolo e família de chip, não só a frequência

"13,56 MHz" é endereço, não identidade. A ISO/IEC 14443 é uma norma de quatro partes, e a Parte 4, que define o protocolo de transmissão de alto nível, é opcional — cartões podem ser feitos com ou sem ela. Na prática, isso significa que dois cartões igualmente "ISO 14443A" podem conversar de formas diferentes com o leitor. Um leitor configurado para ler setores de MIFARE Classic vai enxergar um NTAG no campo, mas não vai extrair dele o que espera. Para catraca, relógio de ponto e refeitório, o cartão RFID MIFARE 1K de 13,56 MHz é o caminho mais previsível, com 1 KB dividido em 16 setores.

2. O dado no lugar que o sistema procura

Se o sistema trabalha por UID, o cartão só precisa ter um UID que a controladora aceite — e aí entram detalhes que travam instalações inteiras: tamanho do UID (4 ou 7 bytes) e ordem de leitura dos bytes, que alguns softwares apresentam invertida. Se o sistema trabalha por setor, é preciso gravar o dado no bloco certo, com a chave certa, antes de entregar o lote. Em cartões de proximidade, existe ainda o caso de sistemas que exigem um número específico já existente: o EM4100 é somente leitura e não resolve, mas o T5577, regravável, permite reproduzir a numeração esperada.

3. Geometria e integridade da antena

O formato CR80 segue a ISO/IEC 7810, que especifica o ID-1 em 85,60 × 53,98 mm com espessura nominal de 0,76 mm. Nossos cartões saem em 0,76 mm ou 0,84 mm conforme o item, e essa diferença importa em dois pontos: o alimentador da impressora e o encaixe em bolsas e clipes. Mais crítico é o furo para cordão. A antena corre pela borda do cartão; furar fora do ponto previsto corta a espira e transforma o cartão em plástico impresso. Por isso o furo é etapa de fábrica, não de tesoura no RH — e quem prefere não furar tem a opção de crachá com clipe ou bolsa.

4. Material e ambiente

Metal desintoniza antena. Cartão de aço inoxidável com chip NFC funciona porque é projetado para isso, mas cartão comum apoiado sobre superfície metálica, preso a um porta-crachá com chapa ou empilhado com outros cartões na carteira degrada a leitura. Em catraca, a queixa clássica de "às vezes não lê" costuma ser a carteira com dois cartões HF no mesmo bolso: os dois entram no campo, a anticolisão trabalha e o leitor pode selecionar o errado.

5. Identificação visual coerente

Em empresa, indústria, hospital e escola, o mesmo objeto precisa servir para a portaria humana e para a catraca. O crachá com foto e chip RFID resolve os dois: impressão fotográfica frente e verso, 300 dpi, com chip de 125 kHz ou 13,56 MHz conforme o sistema. O detalhe operacional é garantir que a numeração impressa no cartão corresponda ao que está gravado no chip — divergência aqui vira erro de cadastro em massa.

6. Consistência ao longo dos lotes

Catraca é infraestrutura de anos. O lote de reposição precisa ter o mesmo chip, a mesma faixa de numeração e a mesma codificação do lote original. Quem personaliza internamente pode trabalhar com cartão branco de 13,56 MHz, compatível com impressoras térmicas e de retransferência, e fazer a gravação no próprio fluxo de emissão.

Segurança: por que UID não deveria ser credencial

O UID é público e não autenticado. Qualquer leitor lê. Sistemas que liberam a catraca só com base nele são, na prática, sistemas sem autenticação. O passo seguinte — ler um setor protegido por chave — também exige atenção: pesquisadores da Radboud University demonstraram em 2008 uma vulnerabilidade no algoritmo proprietário Crypto1 do MIFARE Classic, mostrando que as chaves de 48 bits podem ser recuperadas com relativa facilidade. Trabalho publicado no repositório da IACR indicou que a cifra pode ser quebrada em cerca de 0,1 segundo quando o atacante consegue escutar a comunicação por rádio, e um artigo de 2024 no mesmo repositório trata o MIFARE Classic como comprometido, incluindo variantes de clones.

Isso não inviabiliza o MIFARE Classic para todo uso: para acesso interno de baixo risco, ponto e refeitório, ele continua sendo o padrão de mercado e a compatibilidade com o parque instalado pesa. Mas, para projeto novo em que a catraca controla área sensível ou movimenta valor, a família a especificar é outra — DESFire EV2/EV3 ou MIFARE Plus, com autenticação mútua e chaves diversificadas por cartão. Esses chips estão disponíveis nos mesmos formatos CR80. A condição é que o leitor da catraca suporte a família e que a empresa tenha um processo mínimo de gestão de chaves. Cartão seguro com chave padrão de fábrica não é cartão seguro. Para entender as diferenças de família antes de decidir, o guia de tecnologia RFID e NFC detalha frequências e chips.

Chip HF Memória de usuário Como o leitor costuma usar Indicação em catraca
MIFARE Classic 1K 1 KB, 16 setores UID ou setor com chave Crypto1 Acesso corporativo, ponto, refeitório
MIFARE Ultralight 64 bytes (48 de usuário) UID ou blocos simples Visitante, evento, acesso temporário
NTAG 213/215/216 144 / 504 / 888 bytes NDEF, leitura por celular Aplicações NFC; só serve à catraca se o sistema ler esse chip
DESFire EV2/EV3, MIFARE Plus Estrutura de arquivos Autenticação mútua Projeto novo com exigência de segurança

Quando a catraca também é relógio de ponto

Muita catraca brasileira acumula a função de registro de jornada, e aí a escolha do cartão entra num contexto regulatório. A Portaria 671/2021 do Ministério do Trabalho e Previdência consolidou os modelos de registrador eletrônico de ponto em REP-C, REP-A e REP-P. O cartão é o identificador do trabalhador nesse fluxo: se ele falha, falha o registro. Vale considerar redundância de tecnologia — o cartão híbrido com chip e tarja magnética é usado justamente em migrações, quando o parque tem equipamentos de gerações diferentes convivendo no mesmo prédio.

Perguntas frequentes

Meu cartão de 125 kHz funciona em catraca de 13,56 MHz?

Não. As duas faixas usam princípios de comunicação e protocolos distintos, e nenhum ajuste no leitor resolve. As saídas são trocar os cartões pela faixa correta ou usar cartão híbrido com os dois chips no mesmo corpo, mantendo o parque antigo em operação durante a migração.

Como descubro qual cartão a minha catraca usa?

Comece pelo modelo do leitor: a maioria dos equipamentos de marcas como Control iD, Henry, Topdata, Dimep, Intelbras e ZKTeco informa a faixa na etiqueta ou no manual. Depois, pergunte ao integrador se o sistema lê UID ou setor, qual o tamanho do UID e se há chaves gravadas. Com essas três respostas, a especificação do cartão fica fechada.

Posso furar o cartão RFID para passar o cordão?

Só no ponto previsto em projeto. A antena percorre a borda interna do cartão, e um furo mal posicionado rompe a espira e mata a função RFID sem deixar sinal visível. O furo deve ser feito na fabricação, ou o crachá deve ser usado com bolsa ou clipe.

Cartão de metal ou de bambu passa na catraca?

Depende do chip e do leitor. Os cartões de metal e de bambu do catálogo trazem chips NTAG, pensados para leitura por celular; funcionam em catraca apenas se o sistema instalado ler essa família. Para acesso corporativo convencional, o caminho é o PVC com o chip que a controladora já usa, como nos cartões de proximidade 125 kHz ou nos modelos MIFARE.

Vale a pena migrar de MIFARE Classic para DESFire?

Vale quando a catraca protege área crítica, movimenta valor ou o risco de clonagem tem consequência real, já que as fragilidades da cifra Crypto1 são públicas desde 2008. A migração exige leitor compatível e gestão de chaves; sem os dois, a troca de chip não aumenta a segurança de fato.

Fontes